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Livro das Topografias 2002
 

Bairrada - uma região com história e com futuro

É provável que a viticultura da bairrada tenha tido expressão significativa em tempos de dominação romana. As descrições do dr. José Rodrigues, no seu Couto de Aguim, apontam nesse sentido.

Menos controverso é o grande desenvolvimento dessa viticultura ainda em época anterior à fundação da nacionalidade, como o comprovam os célebres documentos do Mosteiro do Lorvão, onde a vinha aparece em quase todas as povoações bairradinas neles citadas.

Na Bairrada medieval, à semelhança de outras regiões europeias, foram as congregações religiosas as grandes dinamizadoras da cultura da vinha, com destaque para os Mosteiros do Lorvão e Santa Cruz.

A crescente mercantilização de economia tornou o vinho na principal fonte de rendimento dos agricultores, assinalando-se  um sognificativo volume de expedições por via fluvial e marítima, a partir do século XVII.

Em meados do século XIX, a Bairrada tem já u mpeso muito elevado na produção de vinho portuguesa, sendo geralmente considerada, de acordo com o testemunho de António Augusto de Aguiar, a segunda região em ordem de importância, a seguir ao Douro.

O aparecimento do oídio e a crise filoxérica, para além  das consequências económicase técnicas a que deu lugar, esteve na origem de um acto de governo de grande alcance, qual o da criação da Escola Prática de Viticultura e Pomologia da Bairrada - hoje Estação Vitivinícola da Bairrada - que tão relevantes serviços viria a prestar à região e ao País.

A legislação vitivinícola de João Franco, na primeira década do século XX, consagra algumas regiões demarcadas portuguesas e aponta para a criação de outras, entre as quais a Bairrada. Tal objectivo só viria a ser alcançado em 1979, depois de década de esquecimento e abondono, em que apenas se ouviu a voz do indomável professor Américo Urbano.

Mesmo assim, a região consegiu erguer, a partir de 1920, um conjunto notável de empresas - as Caves da Bairrada - algumas das quais se afirmaram duradouramente nos mercados externos mais exigentes.

Uma viticultura com tão longo percurso histórico tem, inevitavelmente, altos e baixos, em relação com as diversas conjuntoras económicas e sociais. Mas, por isso mesmo, tem a seu favor a garantia conferida pelo tempo - esse grande juiz da qualidade das coisas e dos homens.

O aparecimento das doenças da segunda metade do século XIX trouxe ainda como consequência a progressiva selecção das castas mais resistentes e produtividas. Assim se explica a perda de importância de castas como a Xara, Castelão e Bastardo e a hegemonia da Baga - já observada e condenada por António Augusto de Aguiar em 1866.

À data da criação da denominação de origem Bairrada, a Baga representava mais de 90% das videiras regionais. Tal situação teve, porventura, a vantagem de personalizar os vinhos tintos da Bairrada em grau desconhecido noutras regiões, adquirindo alguns deles grande notoriedade. Teve, porém, o incoveniente de, em áreas significativas da região, a produção assentar, ainda hoje, em uvas com déficit de maturidade. Por isso, a reconversão varietal dessas áreas vitícolas constitui uma evidente prioridade.

A tecnologia de vinificação dos tintos manteve-se inalterada quase até aos nossos dias e, convenhamos, mais racional e mais dirigida à qualidade do que alguns sistemas em uso na grande indústria vinícola. Eis as operações e fases mais importantes:
    - transporte em cestos de vime ( cestos Poceiros );
    - pisa de uvas em lagar ou lagareta e, neste caso, transfega manual da massa esmagada para balseiros de madeira;
    - fermentação parcial em lagares de pedra/alvenaria ou em balseiros, resultando neste último caso uma maceração mais intensa, devido à maior temperatura alcançada;
    - acabamento da fermentação alcoólica em tonéis de madeira e manutenção sobre borras até à venda do vinho na Primavera.
    
A moderna Enologia já recuperou algumas destas ideias, valorizando-as com o conhecimento científico de que os nossos avós não dispunham. É caso da fermentação em lagares, agora subtituíndo por higiénicos depósitos abertos de aço inoxidável. É o caso, também, dos acabamentos de fermentação em vasilhas de madeira, agora com recurso a barricas de carvalho e um apertado controlo analítico e sensorial dos vinhos.

A adaptação às novas realidades do mercado tem impulsionando os produtores-engarrafadores e as empresas mais dinâmicas da Bairrada (privadas e cooperativas) no sentido da restauração vitícola e do aperfeiçoamento da tecnologia das vinhas e dos vinhos. Em muitos casos, os resultados desse esforço estão à vista desde há vários anos e correspondem a trajectórias de sucesso. Noutros casos, tais resultados começam a surgir com um verdadeiro nível de excelência.

Há, pois, muitos motivos de esperança, porque a Bairrada tem empresas e homens de qualidade. E todos sabemos como os factores humanos são decisivos para a qualidade dos vinhos e para o sucesso nos mercados.

Engº Dias Cardoso (Enólogo)


Chegar à Bairrada e ... ficar

Cheguei tarde à Bairrada. Mas foi para ficar. Atingira, finalmente, o coração do País Vinhateiro. Fica, estranhamente, do lado direito. Mas que importa, se bate forte e faz correr, abundante e constante, o sangue vermelho-escuro das uvas e a linfa, tantas vezes borbulhante, dos seus brancos?

É um sítio para deixar estar. Não para recorrer, apressadamente, o seu espaço, de norte a sul ou de sul a norte, como o fiz tantas vezes. Parava apenas, ao apelo da fome ou seduzido pelos aromas do leitão, para comer. Por vezes sem saborear devidamente a típica oferta gastronómica da região.

Entretanto, demorara-me, por vezes tempos esquecidos, no Minho onde tudo é verde, verde, verde. Onde as videiras sobem pelas árvores acima, como o faziam há milhões de anos, e é preciso trepar por um escada incrível para ir colher os cachos de que se fazem os brancos para refrescar o corpo e os tintos para lavar a alma.

Deambulara pelo Douro, impressionante conjunto de pirâmides de degraus que descem do céu até ao rio; por onde sobem as mulheres e os homens, durante as vindimas, suando e cantando, porque o vinho é pão mas, sobretudo, alegria e bênção. Navegara rio abaixo até ao Porto onde antes todo o vinho fino vinha repousar para mais tarde partir a dar prazer ao mundo.

Percorrera de lés a lés as Beiras, cujos vinhos são dos mais antigos de que há memória no nosso país, como o atestamos os muitos lagares cavados na rocha pelos Romanos se é que o não foram antes pelos Lusitanos. Terra rica e abundante principalmente de bons vinhos, pão e castanhas, como atestava Manuel Severim de Faria nos princípios de Seiscentos.

Cruzara, em todos os sentidos, a Estremadura, onde a vinha, antiquíssima, vai desde ao pé do mar até terra muito adentro; e o vinho, bem conhecido dos Romanos, foi afeiçoado em todo o seu termo pelos monges de Cister. E onde, mestres spientes na arte de bem provar todo o vinho me transmitiram, na EVN, os segredos de Dionísio.

Andei de festa em festa no Ribatejo onde, como é sabido, a vinha e o vinho conteporâneos da fundação de Portugal, já eram um dos bens mas apreciados dos Romanos e outros povos que os precederam. E hoje mostra uma das maiores manchas vitícolas do país com uma variedade de vinhos impressionante.

Na Península de Setúbal, entre o Tejo e o Sado, deparei-me com Noé ou , melhor, com a sua descendência, entre a qual Túbal, que para ali terá trazido as primeiras cepas. Outra Mesopotâmia onde até os Mouros trabalharam nas vinhas e os cavaleiros de Santiago retemperaram as forças e a fé com bons tragos de branco e de tinto e, mais que tudo, de moscatel.

Sulquei as ondas verdes dos trigais alentejanos até Maio e daí em adiante as vagas de vinhas que na região transtagana dão mares de tintos e de brancos a transbordar das talhas de tempos antigos. Onde se teima em vinificar. Dos melhores. Porque o Alentejo já não é só pão.

Com a Bairrada foi diferente. Cheguei tarde, repito. Tida como segunda região vinhateira de Portugal, a mais importante depois do Douro, como diz António Augusto de Aguiar, não me atraía particularmente. Quem sabe, por culpa do Autor das Conferências sobre Vinhos. Ao escrever acerca da casta de qualidade inferior. Aguiar ainda diz que se pode fazer dela um bom vinho se se deixar amadurecer bem e, sobretudo, se for acompanhada por outras na vinificação, já que os vinhos não podem em geral compor-se de uma casta única, porque poucas estão no caso de produzir vinhos completos.

A.A.A. tinha quase mas não toda a razão, como mais tarde vim a compreender e a experimentar. Por isso precisava de saber mais e no próprio terreno. Vim, pois, à Bairrada para aprender. Não só na EVB em Anadia (já a frequento há lustros, pelo menos duas vezes por ano) com os mestres que repartem o saber sem receber nada em troca, mas também com muitos amigos que me receberam de braços abertos e têm sido pacientes com a minha ignorância em muitos campos, curiosidade e vontade de aprender em todos.

Portanto, fiquei preso à Bairrada, não tanto pela paisagem como pela vinha, não tanto por esta como pelo vinho (e se os encontrei, soberbos, até vinificados só de baga, quer do recentes quer de muito aintigas colheitas! E ainda, na adega do Palace Hotel do Buçaco, um grande senhor da minha idade - 1927 -, talvez um pouco enfraquecido mas vivo), nem mesmo por mera enofilia mas por amizade às mulheres e aos homens bairradinos que levam ao limite de perfeição a arte de fazer vinho (de Baga, de Maria Gomes e de várias outras castas nativas ou aclimatadas) e da amizade fazem o seu estilo de vida.

Oliveira Figueiredo (Jornalista)


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